domingo, 20 de agosto de 2017

K-Pop: Invasão coreana


Fenômeno musical disseminado pela internet, k-pop vira febre no Brasil e faz aumentar interesse pela Coreia do Sul. Sucesso é resultado de estratégia global para divulgar o país a partir da música e aumentar sua influência cultural.



“Nae pi ttam nunmul nae majimak chumeul/ Da gajyeoga ga”. O refrão da música “Blood, Sweat and Tears”, do grupo sul-coreano BTS, pode não fazer sentido para você, mas para uma legião de jovens mundo afora, inclusive no Brasil, faz. 

O BTS é um dos nomes mais famosos do k-pop, abreviação de “korean pop”, estilo musical da Coreia do Sul que mistura o modelo de “boy” e “girl band” a uma forte influência norte-americana, coreografias bem executadas e clipes superproduzidos. A partir dessa produção musical disseminada pela internet, a onda coreana, chamada de “hallyu” pela imprensa asitática, tem invadido o Ocidente. 

Há cerca de 100 grupos em atividade, séries, programas de entretenimento e “reality shows”, tudo disponível on-line. O k-pop virou febre principalmente entre adolescentes na faixa dos 12 aos 18 anos, e todos os elementos desse universo lhe interessam, inclusive moda, costumes e culinária. 

Essa onda é o que explica as 1.500 pessoas presentes em um recente show em São Paulo do grupo BLANC7, lançado em março e com duas músicas no repertório.O BLANC7 passou também por Curitiba e Rio Branco, no Acre.  “Os brasileiros estão tendo um grande interesse pelo k-pop e isso é repassado para nós”, afirma à ISTOÉ o coreano D.L., um dos integrantes do grupo. Também há fãs do estilo na Argentina, nos Estados Unidos, na Europa, na Índia, na Nova Zelândia. O crescente interesse pela cultura coreana não foi, porém, um golpe de sorte. 

Por trás do fenômeno há uma engenhosa e bilionária indústria de entretenimento que conta com o apoio do governo na intenção de vender para o mundo a imagem de um país rico, moderno e sofisticado. O plano tem dado certo.


O PÚBLICO

Jimin é o nome estampado nas costas da jaqueta de beisebol da estudante brasileira Nicole Furtado, 17 anos . “É meu ‘bias'”, diz, referindo-se ao termo que significa o membro preferido de um grupo. “Depois que conheci o pop coreano, o americano ficou até sem graça. A coreografia, as roupas, tudo tem mais impacto, é mais produzido”, diz. Ídolo de Nicole, Jimin faz parte do BTS, primeiro grupo do gênero a receber um prêmio da Billboard. Já vieram ao Brasil três vezes desde 2014 e, na última, em março deste ano, os 14 mil ingressos disponíveis para a apresentação acabaram em poucas horas. Na época, fãs afirmaram esperar em uma fila de compra on-line com mais de 50 mil pessoas.

Com as amigas, Nicole fala alguns termos em coreano como “aish”, para descontentamento, e “oppa”, para garotos mais velhos. Usa o aplicativo Snow, uma espécie de Snapchat, conhecido por ser usado pelos “idols”, os artistas do k-pop. Segue as tendências da moda sul-coreana, a exemplo da jaqueta de beisebol, da saia curta e dos cabelos coloridos. Participa de encontros entre fãs, assim como a estudante de pedagogia Poliana Aparecida Gomes Alves, 31 anos, que se inscreveu em um curso de língua coreana tamanha a paixão pela cultura pop do país. Pela internet, assistem aos dramas, como são chamadas as produções televisivas da Coreia do Sul, uma mistura de série com novela. Acompanham “reality shows” que mostram o cotidiano de seus ídolos. Conhecem os hábitos, a comida, a língua. “Uma coisa leva a outra. Começa com a música, depois vai para o drama e aí para a cultura do país. Quando vi, já estava super envolvida”, diz Poliana.

“A intenção é dominar a internet com vídeos poderosos e vender um ‘lifestyle’, o que inclui de cosméticos a roupas. É tudo planejado” Suk-Young Kim, pesquisadora da Universidade da Califórnia e autora de um livro sobre k-pop que será lançado em 2018.

A INDÚSTRIA


A projeção internacional do k-pop aconteceu nos anos 2000, como explica a pesquisadora da Universidade da Califórnia Suk-Young Kim, autora de um livro sobre k-pop que será lançado em 2018. “As empresas não vendiam mais discos por causa da internet e precisavam pensar em uma estratégia de mercado em outros países”, diz. “Fizeram pesquisas e contrataram músicos de todo lugar. 

Os times de criação se tornaram globais”, diz Kim. “A intenção é dominar a internet com vídeos poderosos e vender um ‘lifestyle’, o que inclui de cosméticos a roupas. É tudo planejado.” O potencial é aproveitado pelo governo, que não só investe nas empresas de entretenimento como nomeia estrelas da música como porta-vozes do turismo. Há também um viés econômico. 

“O plano é fazer o mundo associar os produtos coreanos, como um carro da Kia, à sofisticação”, afirma o especialista em cultura asiática contemporânea Stephen Epstein, professor da Universidade Victoria, na Nova Zelândia. No mercado interno, porém, o k-pop existe há pelo menos 25 anos.



Começou em meados da década de 1990, junto com o boom das “boy bands” nos Estados Unidos. “Foi quando o país passou a se ocidentalizar”, afirma Marcelo Song, 60 anos, vice-presidente da Associação Cultural Coreana, em São Paulo, desde os 10 morando no Brasil. Mas, diferentemente da indústria norte-americana, na coreana o modelo não se exauriu. 

O grupo mais antigo em atividade, Shinhwa, existe desde 1998. Funciona assim: as empresas de entretenimento fazem audições anuais nas quais recrutam jovens a partir dos 11 anos para um programa de trainee. Eles têm aulas de dança, de canto, de comportamento. Passam de três a quatro anos – às vezes até dez, segundo Kim – sendo formatados para depois concorrerem a uma vaga em um grupo, que normalmente tem de quatro a 13 integrantes. 

Então “debutam”, termo usado para o momento em que divulgam a primeira música. A canção é lançada com um clipe super produzido e cheio de referências, do hip-hop à videoarte. Nesse ponto, já são considerados “idols”. Participam de dramas, “reality shows”, programas de entretenimento. O ciclo está fechado. Em setembro, a empresa S.M. vai realizar uma audição no Brasil, que definitivamente se tornou um alvo da indústria do k-pop. 

Mais de dez eventos, incluindo shows e festivais temáticos, aconteceram no País até julho de 2017. O próximo do calendário é o Festival da Cultura Coreana, nos dias 12 e 13 de agosto, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. . “A Coreia do Sul está se lançando para o mundo e quer que o mundo fique do lado dela”, diz Epstein.



Chuva de dólares

Quanto lucra a bilionária indústria do entretenimento coreano, encabeçada por grupos musicais e produções televisivas

US$ 83 bilhões de dólares é a estimativa de quanto vale o mercado do entretenimento na Coreia do Sul

3% a 5% é a média de contribuição dessa indústria para o PIB do país

US$ 1 bilhão foi o faturamento estimado das 10 maiores empresas do ramo em 2016


US$ 1,2 milhão é o valor arrecadado em uma semana por um grupo musical entre os mais famosos.

Fonte: ISTOÉ
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